quarta-feira, 2 de novembro de 2016

8 - o dia de enfrentar os medos

Já se passaram 3 semanas desde o dia em que nasceu a minha filha.
Dei entrada no hospital Cuf Descobertas as 9h00.
Depois de esperar que me viessem buscar à recepção, a senhora muito simpática que me recebeu, ao nos dirigirmos para o elevador pergunta com um enorme sorriso:
-"então é menino ou menina?"
Confesso que não estava, mesmo, à espera da pergunta, porque parti do principio que ela tivesse essa informação e acabei por responder:
-"é menina... quer dizer, era, mas já não é..." e perante um ar confuso acabei por acrescentar
-"ela morreu."
Coitada, a senhora ficou tão aflita e sem saber o que dizer que me deu pena!
Até ao dia de hoje continuo a ter vários destes "momentos awkward", como o Mário e eu lhes chamamos.

Depois de estar instalada no meu quarto iniciamos o processo de indução do parto. Durou desde as 9h20 da manhã de dia 11 de Outubro até as 18h15 de dia 12. 39 longas horas. Tive direito a 7 comprimidos indutivos, mais de 15 reforços de epidural, sendo que pelo meio tive de refazer a própria da epidural, porque o cateter durante a noite saiu do sitio. Desde as 6h30 até por volta das 11h00 fiquei sem analgesia, o que me custou mais do que o parto do Rodrigo... Pelo meio levei morfina (que ficou num bossa subcutânea nas costas, porque nunca mais percebiam que o cateter estava mal posto...).
Tive 12 horas a levar progesterona via venal para acelerar a indução, mas não se sabe porquê, não tive qualquer tipo de reacção (pelo menos a pretendida) com esta hormona. Tive febre e hipotermia (reacção aos comprimidos indutivos).
Não é mesmo simpático todo o filme... Com dezenas de "toques" e "observações pelo caminho.

Ainda assim tenho que dizer que fui sempre super bem tratada pelas enfermeiras, auxiliares e pela minha querida Dra Mariana Loureiro, que foi um anjo e nem dormiu para me poder acompanhar durante todo o tempo.

Finalmente, e sem grande aviso, as 18h15 nasceu a nossa pequenina.
Tinha dito que a queria ver, mas a Enf Paula que me ajudou aconselhou-me a não ver, pois disse que não seria assim que eu me quereria lembrar da minha bebé...
Sentia-me tão fragilizada naquele momento que concordei. Ainda não sei se fiz bem ou não. Para todo o sempre vou ter imagens imaginadas na minha cabeça de como seria a minha filha...
Apesar de supostamente só pesar cerca de 300gr, com todo o líquido e malformações que tinha acabou por pesar 800gr. Por causa disso tivemos que contactar uma agência funerária e tratar de cremar a nossa bebé. Graças a Deus que um amigo nosso é dono de uma, o que nos facilitou imenso todo o processo. Confesso que não fazia questão de cremar ou enterrar a bebé. Pode parecer estranho (se calhar é...) mas eu teria doado o corpo para estudos se pudesse. Aquela já não era a minha Teresinha.

Passadas 3 semanas sinto-me recuperada fisicamente. Sinto-me também em Paz com tudo o que aconteceu. Sei que fiz tudo ao meu alcance pela minha filha. Continuo sem me sentir revoltada ou a questionar o porquê de tudo isto. Não tenho a certeza das sequelas emocionais que possa ter. Apesar de me sentir bem tenho a certeza de que tudo isto me marcou profundamente. Não me sinto com vontade de engravidar novamente logo que fisicamente seja possivel (algo que achei que iria querer). Estou também muito mais sensivel, mais chorona (o que normalmente não sou), mas estas "sequelas" parecem-me bastante normais e até pouco representativas do sofrimento que houve nestes 3 meses.

Apesar de estar público, não vou publicitar este blog com ninguém. Enquanto estava a passar pela incerteza do diagnóstico e do futuro da minha bebé, fez-me muita falta mais informação de pessoas que tivessem passado por isto. Por esse motivo não vou apagar estes posts e talvez, quem sabe, possa ajudar de alguma forma outras familias que se vejam numa situação semelhante.

A essas pessoas desejo muita força, muita serenidade e que estejam sempre rodeadas de muito amor.