domingo, 9 de outubro de 2016

7 - a temível chegada do dia anunciado

E praticamente 3 meses depois do diagnóstico, o dia para o qual os médicos nos foram preparando chegou: na consulta de quinta-feira dia 6 de Outubro não se conseguiu detetar um batimento do coração da nossa Teresinha.
Desde que comecei a namorar com o Mario que sabiamos que se tivessemos uma filha se chamaria Teresa, e no entanto ao longo de todo este processo nunca escrevi aqui que ela era a nossa Teresinha... não sei porquê! É estranho que agora finalmente o diga.
Após o choque inicial daquela imagem parada no ecografo, só consigo descrever o meu principal sentimento como alívio. Finalmente a nossa pequenina está em paz! Ja não vive em constante sofrimento a nossa pequena lutadora. Sinto-me tranquila, sei que fizemos tudo o que podíamos por ela... as perspectivas que nos deram para o futuro dela eram tão complicadas que tenho a certeza que Deus sabe aquilo que faz e que foi melhor assim. Apesar de duros estes 6 meses de existência trouxeram-nos muitas coisas boas também. Somos hoje um casal mais unido, somos hoje pessoas mais humanas, mais gratas, com um maior coração. Apesar de tão difícil foram tempos de muitas aprendizagens. Olhamos para o mundo de uma forma diferente, sem tantas certezas, sem nos agarrarmos tanto aos planos, talvez, mas a dar maior valor ao que realmente interessa. Crescemos e ficámos mais fortes, e tudo isto é motivo para estarmos gratos à curta e sacrificada existência da nossa filha.
Terça-feira que vem vou dar entrada no hospital cuf Descobertas para dar inicio ao processo de indução do parto. Vai ser dificil fisica e emocionalmente... mas vai ter de ser.


sábado, 1 de outubro de 2016

6 - Reacções

No dia 28 fomos fazer o eco cardiograma fetal. Chegámos à CUF Descobertas as 14h30 e fizemos check in para a consulta. A recepcionista disse que estava um pouco atrasado mas que não sabia precisar quanto tempo. Sentámo-nos numa sala de espera à entrada, com outras grávidas e mães de bebés, muitos deles recém-nascidos. Estavam 35º em Lisboa naquele dia, e naquela sala não deviam estar muitos menos... Não percebi se seria uma avaria do ar condicionado, ou se simplesmente não existia ali. Após meia hora de espera, as 15h00, dirigi-me à senhora da recepção e perguntei se ainda estaria muito atrasado e quantas pessoas teríamos à frente. Primeiro respondeu que só a enfermeira é que sabia, mas depois disse que tinha estado a ver e que a médica tinha acabado de chegar poucos minutos antes (!!) e que eu teria ainda 1 pessoa à minha frente...
Voltei para o forno e outra meia hora depois, já estando 1 hora atrasada, decidi ir directamente às enfermeiras da zona dos consultórios e fazer a mesma pergunta... quantas pessoas estariam ainda à minha frente? Soube então que a Dra estava a atender a consulta das 13h50 (eram 15h30!) e que depois disso eu teria ainda 3 pessoas à minha frente!!
Decidi apresentar uma reclamação. Depois de informar a mesma recepcionista que queria o livro, fui encaminhada para uma senhora que imagino que seria do atendimento ao cliente. Levou-nos para um gabinete, para "estar mais fresquinha", e informou-nos que existiam 2 livros disponíveis para reclamações: o interno, que obrigava a uma abertura de inquérito para perceber o que se teria passado e o porquê da Dra se ter atrasado, e o livro do regulador externo. Perguntei se escrevendo no externo não abriam inquérito, ao que me respondeu que sim... optei por este.
Talvez para tentar amenizar a minha irritação (admito que não ando muito tolerante nestes dias...) achou por bem começar a fazer conversa enquanto eu escrevia a reclamação:
-Então é o primeiro filho?
-Não, é o segundo.
-Ah! e não fez esta consulta com o primeiro?
-Não... com o primeiro correu tudo bem e não foi necessário, só com esta é que estamos a ter problemas....
(ela não deve ter registado o que lhe acabei de dizer... decidiu continuar...)
-Ah... e é menino ou menina?
(nesta fase já sentia o Mário a remexer-se na cadeira dele ao meu lado... irritado e com medo da minha reacção...)
-é uma rapariga...
-e o primeiro também era menina?
-não... é um menino.
-Ai que bom!! então vocês estão a viver o sonho de todos os pais: ter um casalinho! (!!!)
(.....)
Debrucei-me mais ainda sobre o livro à minha frente e decidi não responder porque percebi que a intenção não podia ser má, mas fiquei a oscilar entre vontade de rir pela falta de noção desta mulher e  a vontade de lhe responder: olhe, por acaso o sonho que estamos a viver é o de nos dizerem todos os dias que a nossa filha vai seguramente morrer nas próximas semanas! Tem sido maravilhoso este nosso sonho nos últimos 3 meses! Somos seguramente a inveja de tantos casais!
Tive pena dela e não o disse mas... a sério que são estas pessoas que põem a atender os clientes insatisfeitos que querem reclamar?? Optámos por pensar que ela devia estar a ter um mau dia, ou que tinha sido afectada por uma surdez momentânea... e ainda nos rimos os dois na sala de espera depois disto!

Finalmente fomos atendidos, 2h00 depois da hora inicialmente marcada. Após uns primeiros instantes em que a médica parecia um pouco irritada connosco, muito possivelmente por ter sabido que tínhamos apresentado a reclamação, acabou por ser muito querida. Fiquei com a clara sensação de que ficou sensibilizada com o nosso caso e até quase com pena de nós...
Não detectou nenhum problema de maior com o coração da nossa pequenina, para além dos já conhecidos: está muito comprimido pelo líquido, assim como os pulmões. Disse-nos que nunca tinha visto um higroma tão grande nem um caso tão grave, e apesar de não o ter dito, pareceu-nos bastante convencida de que seria uma questão de dias ou semanas até a bebé não aguentar mais... Disse que se ainda fosse caso disso gostaria de me reavaliar dai a 4 semanas e se me importava de lhe mandar um email se não chegássemos a essa data... ou seja, pediu-me, se eu tivesse cabeça para isso, para lhe mandar um mail a dizer quando a bebé morresse e, se soubéssemos, o porquê.

Acaba por ser um exercício de antropologia ver as diferentes reacções das diversas pessoas ao nosso caso.
É "giro" como temos tantas reacções que não esperamos, tanto para o bom como para o mau. Temos pessoas que nunca esperávamos que nos dissessem as coisas certas e que estivessem tão presentes, e que ao longo do tempo nos vão surpreendendo com todo o apoio que nos dão.
 E temos as que jamais estaríamos à espera que desaparecessem com estas notícias ou que consigam dizer tantas vezes as coisas erradas! Eu sei que é difícil digerir a nossa situação, especialmente quando a dizemos a alguém que acabamos de encontrar por acaso e que está mesmo à nossa frente e leva este "chapadão" de repente... é difícil! Não há nada de bom que se possa dizer... e nós já temos toda esta informação há 3 meses, falo sobre isto com bastante calma e tranquilidade... Já deixei nas mãos de Deus há muito tempo! E claro que tenho momentos em que me vou completamente abaixo, mas nunca me aconteceu à frente de ninguém, a não ser do Mário. Eu também admito que não sou uma pessoa muito aberta nas minhas emoções. Sou muito controlada, e é muito raro chorar. Mas isto não significa que não seja sensível, ou emocional... e tenho ouvido cada coisa....
Também acaba por ser um exercício bom para auto-análise, porque tenho pensado muito nas minhas próprias reacções quando amigas minhas me deram a noticia de terem sofrido um aborto espontâneo, por exemplo... e não tenho a certeza do que disse quando soube, mas espero ter dito as coisas certas. Sem dúvida que estou muito mais consciente e, espero, humana neste sentido...
Um conselho: quando alguém vos dá uma noticia deste género, o melhor é simplesmente dizer: sinto muito, ou lamento que estejas a passar por isso, ou estou aqui para o que precisares. keep it simple. Não se alonguem muito... deêm espaço para a pessoa falar e desabafar, se assim o entender, mas não digam coisas como: bem, pelo menos foi no inicio, podes sempre tentar outra vez, ainda es nova, etc etc etc. E no caso de ser um caso como o meu nunca ponham em causa as decisões que essa pessoa tomou. Provavelmente foram as decisões mais difíceis que já tomou na vida, e a ultima coisa que precisam de ouvir é: e tens a certeza de que não seria melhor abortar?? Just don't.