sábado, 1 de outubro de 2016

6 - Reacções

No dia 28 fomos fazer o eco cardiograma fetal. Chegámos à CUF Descobertas as 14h30 e fizemos check in para a consulta. A recepcionista disse que estava um pouco atrasado mas que não sabia precisar quanto tempo. Sentámo-nos numa sala de espera à entrada, com outras grávidas e mães de bebés, muitos deles recém-nascidos. Estavam 35º em Lisboa naquele dia, e naquela sala não deviam estar muitos menos... Não percebi se seria uma avaria do ar condicionado, ou se simplesmente não existia ali. Após meia hora de espera, as 15h00, dirigi-me à senhora da recepção e perguntei se ainda estaria muito atrasado e quantas pessoas teríamos à frente. Primeiro respondeu que só a enfermeira é que sabia, mas depois disse que tinha estado a ver e que a médica tinha acabado de chegar poucos minutos antes (!!) e que eu teria ainda 1 pessoa à minha frente...
Voltei para o forno e outra meia hora depois, já estando 1 hora atrasada, decidi ir directamente às enfermeiras da zona dos consultórios e fazer a mesma pergunta... quantas pessoas estariam ainda à minha frente? Soube então que a Dra estava a atender a consulta das 13h50 (eram 15h30!) e que depois disso eu teria ainda 3 pessoas à minha frente!!
Decidi apresentar uma reclamação. Depois de informar a mesma recepcionista que queria o livro, fui encaminhada para uma senhora que imagino que seria do atendimento ao cliente. Levou-nos para um gabinete, para "estar mais fresquinha", e informou-nos que existiam 2 livros disponíveis para reclamações: o interno, que obrigava a uma abertura de inquérito para perceber o que se teria passado e o porquê da Dra se ter atrasado, e o livro do regulador externo. Perguntei se escrevendo no externo não abriam inquérito, ao que me respondeu que sim... optei por este.
Talvez para tentar amenizar a minha irritação (admito que não ando muito tolerante nestes dias...) achou por bem começar a fazer conversa enquanto eu escrevia a reclamação:
-Então é o primeiro filho?
-Não, é o segundo.
-Ah! e não fez esta consulta com o primeiro?
-Não... com o primeiro correu tudo bem e não foi necessário, só com esta é que estamos a ter problemas....
(ela não deve ter registado o que lhe acabei de dizer... decidiu continuar...)
-Ah... e é menino ou menina?
(nesta fase já sentia o Mário a remexer-se na cadeira dele ao meu lado... irritado e com medo da minha reacção...)
-é uma rapariga...
-e o primeiro também era menina?
-não... é um menino.
-Ai que bom!! então vocês estão a viver o sonho de todos os pais: ter um casalinho! (!!!)
(.....)
Debrucei-me mais ainda sobre o livro à minha frente e decidi não responder porque percebi que a intenção não podia ser má, mas fiquei a oscilar entre vontade de rir pela falta de noção desta mulher e  a vontade de lhe responder: olhe, por acaso o sonho que estamos a viver é o de nos dizerem todos os dias que a nossa filha vai seguramente morrer nas próximas semanas! Tem sido maravilhoso este nosso sonho nos últimos 3 meses! Somos seguramente a inveja de tantos casais!
Tive pena dela e não o disse mas... a sério que são estas pessoas que põem a atender os clientes insatisfeitos que querem reclamar?? Optámos por pensar que ela devia estar a ter um mau dia, ou que tinha sido afectada por uma surdez momentânea... e ainda nos rimos os dois na sala de espera depois disto!

Finalmente fomos atendidos, 2h00 depois da hora inicialmente marcada. Após uns primeiros instantes em que a médica parecia um pouco irritada connosco, muito possivelmente por ter sabido que tínhamos apresentado a reclamação, acabou por ser muito querida. Fiquei com a clara sensação de que ficou sensibilizada com o nosso caso e até quase com pena de nós...
Não detectou nenhum problema de maior com o coração da nossa pequenina, para além dos já conhecidos: está muito comprimido pelo líquido, assim como os pulmões. Disse-nos que nunca tinha visto um higroma tão grande nem um caso tão grave, e apesar de não o ter dito, pareceu-nos bastante convencida de que seria uma questão de dias ou semanas até a bebé não aguentar mais... Disse que se ainda fosse caso disso gostaria de me reavaliar dai a 4 semanas e se me importava de lhe mandar um email se não chegássemos a essa data... ou seja, pediu-me, se eu tivesse cabeça para isso, para lhe mandar um mail a dizer quando a bebé morresse e, se soubéssemos, o porquê.

Acaba por ser um exercício de antropologia ver as diferentes reacções das diversas pessoas ao nosso caso.
É "giro" como temos tantas reacções que não esperamos, tanto para o bom como para o mau. Temos pessoas que nunca esperávamos que nos dissessem as coisas certas e que estivessem tão presentes, e que ao longo do tempo nos vão surpreendendo com todo o apoio que nos dão.
 E temos as que jamais estaríamos à espera que desaparecessem com estas notícias ou que consigam dizer tantas vezes as coisas erradas! Eu sei que é difícil digerir a nossa situação, especialmente quando a dizemos a alguém que acabamos de encontrar por acaso e que está mesmo à nossa frente e leva este "chapadão" de repente... é difícil! Não há nada de bom que se possa dizer... e nós já temos toda esta informação há 3 meses, falo sobre isto com bastante calma e tranquilidade... Já deixei nas mãos de Deus há muito tempo! E claro que tenho momentos em que me vou completamente abaixo, mas nunca me aconteceu à frente de ninguém, a não ser do Mário. Eu também admito que não sou uma pessoa muito aberta nas minhas emoções. Sou muito controlada, e é muito raro chorar. Mas isto não significa que não seja sensível, ou emocional... e tenho ouvido cada coisa....
Também acaba por ser um exercício bom para auto-análise, porque tenho pensado muito nas minhas próprias reacções quando amigas minhas me deram a noticia de terem sofrido um aborto espontâneo, por exemplo... e não tenho a certeza do que disse quando soube, mas espero ter dito as coisas certas. Sem dúvida que estou muito mais consciente e, espero, humana neste sentido...
Um conselho: quando alguém vos dá uma noticia deste género, o melhor é simplesmente dizer: sinto muito, ou lamento que estejas a passar por isso, ou estou aqui para o que precisares. keep it simple. Não se alonguem muito... deêm espaço para a pessoa falar e desabafar, se assim o entender, mas não digam coisas como: bem, pelo menos foi no inicio, podes sempre tentar outra vez, ainda es nova, etc etc etc. E no caso de ser um caso como o meu nunca ponham em causa as decisões que essa pessoa tomou. Provavelmente foram as decisões mais difíceis que já tomou na vida, e a ultima coisa que precisam de ouvir é: e tens a certeza de que não seria melhor abortar?? Just don't.



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